Entre o Gol e o desenvolvimento: O que estamos comemorando?

Recentemente, a convocação de Neymar para a Seleção Brasileira voltou a ocupar manchetes, programas esportivos, redes sociais e rodas de conversa. Em poucos minutos, milhares de mensagens celebravam seu retorno, enquanto vídeos emocionados, análises táticas e expectativas para a próxima Copa do Mundo dominavam a atenção nacional. O fenômeno não é novo. Em um país onde o futebol ocupa um espaço quase sagrado na cultura popular, a Seleção Brasileira continua sendo capaz de despertar sentimentos coletivos que poucas instituições conseguem mobilizar.

Mas uma pergunta merece ser feita: o que exatamente estamos comemorando?

A questão não é um ataque ao futebol, ao atleta ou à paixão legítima que milhões de brasileiros cultivam pelo esporte. Pelo contrário. O futebol é uma das maiores expressões culturais do Brasil. Ele reúne famílias, cria memórias afetivas, produz identificação nacional e oferece oportunidades reais para muitos jovens. Como professor de Meio Ambiente, Desenvolvimento e Sustentabilidade (MADS) em um curso de Educação Física, reconheço plenamente o potencial transformador do esporte. Como psicólogo, também compreendo a importância dos símbolos coletivos, da esperança e do sentimento de pertencimento para a saúde emocional das pessoas. Entretanto, justamente por trabalhar com os conceitos de desenvolvimento humano, qualidade de vida e sustentabilidade, não consigo deixar de refletir sobre a diferença entre celebrar um espetáculo e discutir o desenvolvimento de uma nação. Quando um jogador recebe em um único mês valores que a maioria dos brasileiros não acumularia ao longo de décadas de trabalho, algo merece ser analisado com mais cuidado.

Não porque o sucesso individual deva ser condenado, mas porque frequentemente passamos a viver emocionalmente conquistas que não são nossas. Vibra-se pela mansão adquirida, pelo contrato milionário, pelo carro de luxo ou pela convocação internacional como se esses acontecimentos representassem uma melhoria concreta na vida coletiva. Nesse sentido, o futebol revela algo interessante sobre a sociedade contemporânea: nossa extraordinária capacidade de nos identificarmos com histórias de sucesso individual enquanto permanecem em segundo plano discussões fundamentais sobre educação, saúde, saneamento, mobilidade urbana, preservação ambiental e redução das desigualdades. É mais fácil acompanhar a trajetória de um craque do que refletir sobre os indicadores que realmente definem o desenvolvimento de um país.

A Agenda 2030 das Nações Unidas nos lembra que desenvolvimento não significa apenas crescimento econômico. Uma sociedade desenvolvida é aquela capaz de promover educação de qualidade, saúde, trabalho digno, sustentabilidade ambiental, redução das desigualdades e oportunidades para todos. Sob essa perspectiva, a convocação de um atleta pode ser motivo de orgulho nacional, mas jamais deveria ser confundida com um indicador de progresso social. Talvez o verdadeiro desafio esteja em equilibrar as duas coisas.

Podemos comemorar um gol sem esquecer a realidade. Podemos admirar um atleta sem transformar sua trajetória em substituto dos nossos próprios projetos de vida. Podemos amar o futebol e, ao mesmo tempo, exigir políticas públicas que ampliem oportunidades para milhões de brasileiros que jamais vestirão o uniforme da Seleção. Como professor e psicólogo, acredito que a educação tem justamente essa função: ampliar nossa capacidade de reflexão. O esporte é extraordinário quando inspira superação, disciplina, convivência e cidadania. Torna-se ainda mais valioso quando nos ajuda a pensar criticamente sobre a sociedade que construímos e sobre aquela que desejamos construir. Afinal, uma Copa do Mundo dura algumas semanas.

O desenvolvimento de um país é uma tarefa de gerações. E talvez a pergunta mais importante não seja quem foi convocado para vestir a camisa da Seleção, mas quem está sendo convocado para participar da construção de um Brasil mais justo, sustentável e desenvolvido para todos.

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