Levantamento avaliou 3.577 vítimas em quatro capitais brasileiras; cocaína foi a substância mais detectada e homicídios representaram 67% dos casos
Mais da metade das vítimas de mortes violentas analisadas em um estudo da Universidade de São Paulo (USP) apresentavam álcool ou drogas no organismo no momento do óbito. A pesquisa identificou a presença de pelo menos uma substância psicoativa em 53% dos 3.577 casos avaliados em Belém (PA), Recife (PE), Vitória (ES) e Curitiba (PR).
Os resultados foram publicados na revista científica Toxics e fazem parte de um levantamento realizado entre 2022 e 2024 por pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.
Segundo o estudo, 90% das vítimas eram homens, 56% tinham 30 anos ou mais e 67% morreram em homicídios. Acidentes de trânsito representaram 15% dos casos analisados, enquanto os suicídios corresponderam a 9%.
Entre as substâncias identificadas, a cocaína apareceu em 30% das amostras, seguida pelo álcool, presente em 28%. Também foram encontrados benzodiazepínicos, em 7% dos casos, e cannabis, em 2%.
De acordo com o pesquisador Henrique Silva Bombana, primeiro autor do estudo, o objetivo foi produzir dados padronizados sobre a relação entre substâncias psicoativas e mortes por causas externas no país. As amostras de sangue foram coletadas durante necrópsias e enviadas para análise em laboratório da USP.
Os resultados apontaram padrões diferentes conforme a causa da morte. A cocaína foi mais frequente entre vítimas de homicídio, enquanto o álcool predominou nos casos de acidentes de trânsito. Já os benzodiazepínicos foram mais encontrados entre vítimas de suicídio.
Os pesquisadores ressaltam que o estudo não permite estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre o consumo das substâncias e a ocorrência das mortes. O modelo utilizado possibilita identificar prevalência e associações, mas não comprovar que determinada droga foi responsável pelo desfecho.
Nos casos de homicídio, cerca de 85% das mortes ocorreram por ferimentos causados por arma de fogo, segundo os registros policiais analisados pela equipe.
A pesquisa também identificou diferenças regionais. Recife apresentou maior prevalência de mortes associadas ao álcool, enquanto Vitória e Belém registraram mais casos relacionados ao uso de drogas ilícitas sem associação com álcool. Em Curitiba, o álcool foi mais frequente do que as drogas ilegais.
O estudo foi desenvolvido pelo grupo “Álcool, Drogas e Violência”, da Faculdade de Medicina da USP, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad).