Uma das coisas que mais observo hoje, como atleta e profissional de Educação Física, é o quanto as redes sociais estão interferindo na relação das pessoas com o esporte. Todos os dias somos expostos a atletas extremamente preparados, corpos transformados, grandes cargas na musculação, provas de endurance, competições, recordes pessoais, treinos de alto nível e resultados que, quando vistos isoladamente, podem fazer qualquer pessoa acreditar que está muito longe de onde deveria estar. O problema é que quase sempre estamos comparando o nosso processo com o resultado de outra pessoa.
O Instagram mostra alguns segundos de uma realidade. Não mostra os anos de treinamento, a disciplina, os erros, as lesões, os períodos de estagnação, os treinos ruins, as dificuldades pessoais e todas as renúncias que fizeram aquela pessoa chegar até aquele resultado. Você vê o atleta pronto, mas não conhece o caminho que ele percorreu para chegar ali. E, principalmente, não sabe de onde ele começou.
No esporte, isso é fundamental. Cada pessoa possui uma condição física, uma história, uma rotina, uma genética, uma idade, uma experiência e uma capacidade de adaptação diferentes. Por isso, não existe evolução padronizada. O que para um atleta experiente é um treino básico pode representar uma enorme conquista para alguém que está começando. Uma pessoa que hoje consegue correr alguns quilômetros, aumentar uma carga na musculação, nadar uma determinada distância, pedalar por mais tempo, melhorar sua mobilidade ou simplesmente manter uma rotina de treinamento pode estar vivendo uma transformação muito maior do que aquela que aparece em qualquer publicação.
Como profissional, muitas vezes preciso lembrar meus alunos disso, que evolução não é apenas melhorar performance, também é sair da inércia. É criar disciplina, estabelecer uma rotina, aprender a respeitar o próprio corpo, melhorar hábitos e fazer hoje aquilo que você não conseguia fazer alguns meses atrás. O esporte não deveria servir apenas para estabelecer quem é melhor ou pior. Ele também é uma ferramenta de transformação pessoal.
Por isso, não há problema nenhum em admirar atletas melhores do que você, acompanhar pessoas que são referência e buscar inspiração em quem já alcançou aquilo que você deseja. O problema começa quando a conquista do outro passa a ser utilizada como argumento para diminuir a sua própria evolução. Você não precisa estar no mesmo nível de quem treina há dez ou quinze anos. Você precisa entender onde estava, onde está agora e qual é o próximo passo possível.
Às vezes, estamos tão preocupados em chegar onde outra pessoa chegou que esquecemos de olhar para trás e reconhecer a distância que já percorremos. Talvez você ainda não tenha o corpo que gostaria, a força que gostaria, o condicionamento que gostaria ou a performance que gostaria. Mas talvez, há um ano, você sequer treinasse. Talvez não tivesse disposição, disciplina ou coragem para começar. E isso também precisa entrar na conta.
O esporte deveria ser uma comparação principalmente com nós mesmos. Não para alimentar ego, mas para reconhecer evolução. Use outras pessoas como referência, não como motivo para se sentir inferior. Aprenda com quem está à sua frente, respeite quem está em outro nível e, ao mesmo tempo, valorize quem você está se tornando.
Porque existe uma diferença enorme entre ainda não ter chegado onde você quer e não ter evoluído. Uma coisa não significa a outra.
E talvez a pergunta mais importante não seja “por que eu ainda não estou no nível daquela pessoa?”, mas sim: “quando olho para quem eu era há um, dois ou cinco anos, consigo reconhecer o quanto evoluí?”
Se a resposta for sim, continue. Você está no caminho.
O Instagram mostra o resultado dos outros. A vida real é construída no processo.