Quando foi que ficou proibido ser imperfeito?

Tenho a impressão de que, em algum momento, nós assinamos um contrato que ninguém nos mostrou.

Um contrato que diz que precisamos acertar sempre. Ter opinião sobre tudo. Saber responder tudo. Estar sempre bem. Ter sucesso. Ter o corpo em dia. O relacionamento perfeito. A família perfeita. O trabalho perfeito.

E, principalmente, não podemos errar.

Porque basta um deslize para aparecer alguém pronto para julgar.

As redes sociais transformaram a vida em uma espécie de tribunal permanente. Todo mundo observa todo mundo. Todo mundo comenta. Todo mundo tem uma sentença pronta.

E talvez o mais curioso seja que, enquanto cobramos perfeição dos outros, seguimos tentando esconder as nossas próprias imperfeições.

No esporte isso fica ainda mais evidente. Um atleta perde uma competição e, de repente, parece que tudo o que ele construiu deixou de existir. Um jogador faz uma partida ruim e vira “péssimo”. Um treinador toma uma decisão equivocada e passa a ser chamado de incompetente. Um árbitro erra e imediatamente alguém questiona seu caráter.

Mas ninguém consegue acertar o tempo inteiro, aliás, talvez seja justamente aí que esteja a beleza do esporte.

O esporte ensina a perder, ensina que você pode treinar durante meses, fazer tudo certo e, ainda assim, naquele dia, não ser o melhor. Ensina que existem adversários melhores, dias ruins, decisões equivocadas, lesões, imprevistos e derrotas que simplesmente fazem parte do caminho.

Só que parece que esquecemos disso, e não acontece apenas com atletas profissionais, pois até quem está começando a praticar uma atividade física parece obrigado a apresentar resultado imediatamente. A pessoa começa a correr, pedalar, nadar, jogar futebol ou frequentar uma academia e já aparece alguém para comparar seu desempenho com o de quem pratica aquilo há anos.

É como se não pudéssemos mais ser iniciantes, e precisássemos nascer prontos, e isso é cruel, porque ninguém começa sabendo.

Ninguém começa forte.

Ninguém começa rápido.

Ninguém começa perfeito.

Existe uma história por trás de cada pessoa que hoje admiramos, mas o problema é que nós vemos o resultado, mas raramente vemos o processo.

Vemos a medalha, mas não vemos os dias difíceis.

Vemos o corpo definido, mas não vemos os meses de disciplina.

Vemos a vitória, mas não vemos as derrotas.

Vemos o sorriso, mas não sabemos o que aquela pessoa enfrentou antes de chegar até ali.

E talvez seja por isso que tanta gente esteja cansada, cansada de precisar parecer bem, cansada de precisar provar alguma coisa, de viver tentando corresponder à expectativa de pessoas que, muitas vezes, nem conhecem a sua história.

A verdade é que errar não diminui ninguém, perder não transforma ninguém em fracassado.

Ter um dia ruim não apaga uma trajetória.

Mudar de ideia não significa falta de personalidade.

Pedir desculpas não é sinal de fraqueza.

E admitir que não sabe alguma coisa pode ser uma das maiores demonstrações de inteligência que alguém consegue dar.

Precisamos recuperar o direito de sermos humanos.

De errar.

De aprender.

De tentar novamente.

De começar do zero.

De não saber.

De perder.

De mudar.

De não estar bem todos os dias.

Talvez o mundo não precise de mais pessoas perfeitas, talvez precise de pessoas mais honestas sobre suas imperfeições.

E, principalmente, talvez nós precisemos parar de transformar qualquer erro alheio em oportunidade para nos sentirmos superiores.

Porque amanhã pode ser a nossa vez, afinal, ninguém está imune ao erro.

Nem o atleta.

Nem o treinador.

Nem o empresário.

Nem o professor.

Nem o médico.

Nem o pai.

Nem a mãe.

Nem você.

Nem eu.

Todos nós estamos apenas tentando fazer o melhor que conseguimos com aquilo que temos, com aquilo que sabemos e com o momento que estamos vivendo.

E talvez a grande evolução não seja aprender a nunca mais errar, seja aprender a errar sem deixar de ser humano e permitir que os outros façam o mesmo.

Compartilhe essa notícia