A corrida que você escolhe quando e onde fazer

Quem está acostumado com o modelo tradicional talvez ainda torça o nariz, mas existe um mercado que vem crescendo silenciosamente dentro do universo da corrida de rua, as corridas virtuais. A proposta é simples e, justamente por isso, interessante.

Você entra em uma plataforma especializada, escolhe o desafio, a distância, a medalha que quer receber, decide se quer apenas a medalha ou um kit com camiseta e outros itens, faz a inscrição e depois realiza a atividade no seu próprio ritmo, no lugar e no horário que forem mais convenientes. Cumpriu a distância? É só enviar a comprovação através do Strava, relógio ou aplicativo utilizado, aguardar a validação e receber a medalha em casa. É uma maneira completamente diferente de participar de uma “prova”, sem necessariamente existir uma largada, um pórtico ou uma multidão esperando por você.

E por que isso está crescendo tanto? Existem vários motivos, e um deles talvez seja justamente o desgaste que parte dos corredores vem sentindo com algumas provas presenciais.

Quem corre sabe que participar de uma corrida não envolve apenas pagar a inscrição e colocar o tênis no pé, muitas vezes existe viagem, combustível, estacionamento, hotel, alimentação, preparação específica e meses de treinamento envolvidos naquele momento. E aí você chega no dia da prova e encontra largada atrasada, percurso mal sinalizado, falta de hidratação, problemas com chip, trânsito mal organizado, resultados que demoram, kits que apresentam problemas e uma série de situações que transformam aquilo que deveria ser uma experiência esportiva em um verdadeiro perrengue. Em casos mais graves, existem provas canceladas, interrompidas ou até embargadas. Eu mesmo vivi isso recentemente em Piracicaba, onde estava preparado para correr, tinha todo o planejamento feito e, simplesmente, não houve largada porque a prova foi embargada.

Quando uma situação dessas acontece, o atleta não perde apenas a inscrição, muitas vezes perde dinheiro, viagem, hospedagem, planejamento e, principalmente, a expectativa construída durante semanas ou meses.

Mas seria injusto colocar todo o crescimento das corridas virtuais apenas na conta das más organizações.

Existe outro público enorme descobrindo que não precisa necessariamente correr no meio de milhares de pessoas para se sentir corredor. Há pessoas que não gostam de multidões, que são mais reservadas, que preferem treinar sozinhas e que não sentem nenhuma necessidade de disputar espaço em uma largada lotada. Para esse corredor, completar uma determinada distância pode ser um desafio absolutamente pessoal, sem necessidade de comparação com o pace do vizinho, sem disputa, sem classificação e sem ninguém para provar nada. É simplesmente uma meta que ele colocou para si mesmo e que pretende cumprir.

E, convenhamos, não existe nada de errado nisso.

Também existe aquele corredor que mora longe dos grandes centros, que não consegue viajar todo final de semana, que trabalha em horários complicados ou que simplesmente não quer transformar cada corrida em uma operação logística. Para ele, a possibilidade de escolher o dia, o horário e o local pode fazer toda a diferença. Em vez de esperar uma prova acontecer em determinada cidade e determinada data, ele escolhe um desafio virtual e encaixa aquela distância na própria rotina.

E aí está talvez o grande segredo desse modelo, a liberdade de escolha. Você pode escolher a distância que quer enfrentar, o desafio que mais combina com seu momento, a medalha que quer conquistar e até o tipo de kit que deseja receber. Depois, basta cumprir aquilo que foi proposto e comprovar a atividade. Não existe a necessidade de estar fisicamente no mesmo lugar que os outros participantes para que o desafio tenha significado para você.

É claro que eu continuo sendo um defensor das corridas presenciais. Não existe aplicativo que consiga reproduzir completamente a emoção de uma largada, a energia de centenas ou milhares de corredores juntos, a torcida, o amigo esperando na chegada ou aquele momento em que você cruza o pórtico depois de uma prova difícil. Isso faz parte da cultura da corrida e continuará existindo. Mas uma coisa não precisa necessariamente eliminar a outra.

As corridas virtuais estão criando uma alternativa para quem quer correr de outra maneira. E talvez o crescimento desse mercado seja justamente um reflexo de como o esporte está mudando.

Hoje, a tecnologia permite registrar praticamente tudo o que fazemos, comprovar uma distância, acompanhar ritmo, tempo e percurso e transformar uma meta individual em um desafio oficial, ainda que ele aconteça longe de um evento tradicional.

Talvez a discussão nem devesse ser se uma corrida virtual é “corrida de verdade”. Para quem está ali cumprindo a própria meta, pouco importa se existe um pórtico ou não. Se aquela pessoa saiu de casa, colocou o tênis, enfrentou seus próprios limites e completou a distância que havia se proposto a fazer, alguma coisa aconteceu naquele dia.

A medalha chega pelo correio, mas a conquista aconteceu na rua.

E talvez seja justamente por isso que as corridas virtuais estejam deixando de ser uma novidade para se transformar em uma parte cada vez maior do universo da corrida.

Alguns só querem chegar mais longe do que chegaram ontem.

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