Mounjaro, musculação e o direito de cuidar de si

Existe uma coisa curiosa acontecendo hoje. Algumas pessoas estão emagrecendo, melhorando exames, recuperando autoestima e qualidade de vida, mas têm vergonha de contar que estão usando Mounjaro ou outro medicamento prescrito para o tratamento da obesidade.

E sabe por quê?

Porque têm medo do julgamento.

“Ah, mas foi o Mounjaro.”

“Assim é fácil.”

“Quero ver emagrecer sem remédio.”

“Está tomando isso aí?”

Tem gente que fala como se a pessoa estivesse fazendo alguma coisa errada. Como se estivesse usando uma droga escondida, cometendo uma trapaça ou procurando um atalho vergonhoso.

E talvez essa seja uma das partes mais injustas dessa discussão.

Quando alguém toma medicamento para pressão alta, ninguém pergunta se foi fácil baixar a pressão.

Quando toma remédio para colesterol, ninguém diz que está “trapaceando”.

Quando precisa de medicação para diabetes, ninguém faz piada dizendo que a pessoa deveria resolver “na força de vontade”.

Mas quando o assunto é obesidade, parece que todo mundo se transforma em especialista.

De repente, aquele amigo que nunca estudou medicina começa a dar diagnóstico.

Aquele conhecido que nunca acompanhou a rotina da pessoa começa a falar de força de vontade.

E aquele colega que não sabe absolutamente nada sobre a vida daquele indivíduo se sente no direito de fazer piada.

Por quê?

Obesidade é uma doença complexa. Não é simplesmente uma questão de “fechar a boca e correr”.

E, para algumas pessoas, medicamentos podem fazer parte de um tratamento médico. Isso não significa que todo mundo deva usar, nem que sejam indicados para qualquer pessoa. Significa apenas que quem precisa de tratamento médico não deveria sentir vergonha por procurar ajuda.

E aqui entra outro ponto que considero fundamental, em que o medicamento não deveria ser visto como substituto de um estilo de vida saudável.

Se a pessoa está utilizando uma medicação prescrita para emagrecer, a musculação, o exercício físico, uma alimentação adequada, o acompanhamento médico e a mudança de hábitos continuam tendo enorme importância.

Aliás, é justamente aí que entra a musculação.

Em um processo de perda de peso, não deveríamos estar preocupados apenas com quantos quilos desapareceram da balança. Precisamos olhar para a composição corporal, para a força e para a capacidade funcional.

Não basta diminuir o tamanho do corpo. Precisamos cuidar daquilo que existe dentro dele.

A musculação é uma importante ferramenta nesse processo, especialmente para ajudar a preservar e desenvolver massa muscular e força.

Por isso, eu não gosto da discussão “Mounjaro ou musculação”.

Para mim, a pergunta deveria ser:

Como podemos utilizar, de maneira responsável, as ferramentas disponíveis para ajudar uma pessoa a ter uma vida mais saudável?

E existe ainda uma questão que precisamos discutir: o preconceito.

Talvez você conheça alguém que esteja usando Mounjaro e você nem saiba.

Talvez seja aquele amigo que você viu emagrecer bastante.

Talvez seja alguém da sua família.

Talvez seja uma pessoa que passou anos tentando emagrecer, sofreu com o próprio corpo, ouviu piadas, evitou lugares, deixou de tirar fotos e tentou inúmeras estratégias antes de procurar ajuda.

E agora que finalmente está conseguindo mudar, ainda precisa esconder o tratamento porque tem medo de ouvir:

“Foi o remédio.”

Pois eu penso diferente.

Se uma pessoa procurou ajuda, está sendo acompanhada e está cuidando da própria saúde, ela não precisa da nossa autorização para se tratar.

E muito menos da nossa piada.

Não precisamos romantizar medicamentos. Não precisamos incentivar seu uso sem indicação. Não precisamos fingir que eles são mágicos.

Mas também não precisamos transformar quem utiliza uma ferramenta médica em motivo de vergonha.

Talvez a gente precise parar de perguntar:

“Você emagreceu como?”

E começar a perguntar:

“Você está melhor?”

O objetivo não deveria ser ganhar uma discussão sobre quem emagreceu com ou sem medicamento, e sim deveria ser ajudar pessoas a viverem mais e melhor.

E, se existe uma combinação que merece ser discutida com muito mais seriedade, é essa:

tratamento médico quando indicado, exercício físico, especialmente treinamento de força, alimentação adequada e mudança de hábitos.

Sem vergonha.

Sem julgamento.

Sem piada.

E principalmente, sem transformar o sofrimento de alguém em entretenimento para os outros.

Cuidar da própria saúde não é trapaça. É responsabilidade.

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