Estudo da USP aponta redução do desejo por comida após estimulação cerebral em mulheres com obesidade

Pesquisa acompanhou participantes por seis meses e não identificou mudanças significativas no peso corporal

Um estudo-piloto conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) identificou redução do desejo intenso por comida em mulheres com obesidade após cinco dias de estimulação cerebral não invasiva combinada a sessões de educação nutricional. Segundo os resultados, publicados na revista Physiology & Behavior, o efeito foi observado após a intervenção e permaneceu durante o acompanhamento de seis meses.

A pesquisa avaliou a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS, na sigla em inglês), técnica que utiliza uma corrente elétrica de baixa intensidade para modular a atividade de regiões do cérebro relacionadas à tomada de decisões e ao controle do comportamento alimentar.

O estudo foi realizado com 11 mulheres de 20 a 40 anos, com obesidade grau 1 ou 2. Durante cinco dias consecutivos, as participantes receberam três sessões diárias de estimulação de 20 minutos cada, totalizando 15 aplicações. Um grupo-controle, também composto por participantes, recebeu estimulação simulada.

Entre as sessões, as mulheres participaram de atividades de educação nutricional sobre saciedade, alimentação consciente, leitura de rótulos, hidratação, sono, fome física e emocional e controle das porções.

Os pesquisadores avaliaram peso, índice de massa corporal (IMC), composição corporal, apetite, desejo por comida e comportamento alimentar antes e depois da intervenção. Novas avaliações foram realizadas um, três e seis meses após o procedimento.

De acordo com Marina Rodrigues Giuliani, primeira autora do artigo e nutricionista do Laboratório de Estudos em Nutrição, Neurociências e Metabolismo da USP, a estimulação ativa reduziu o desejo por comida logo após o tratamento, com manutenção do efeito ao longo do acompanhamento.

Apesar da redução do desejo alimentar, não houve alterações significativas no peso, no IMC ou na composição corporal das participantes. Os pesquisadores afirmam que o resultado era esperado, já que a intervenção durou cinco dias e não incluiu uma dieta com restrição calórica.

A pesquisa também identificou melhora no controle consciente da ingestão de alimentos e redução do comer descontrolado nos dois grupos. Como todas as participantes tiveram acesso às atividades de educação nutricional, os autores apontam que essas sessões podem ter contribuído para as mudanças no comportamento alimentar.

Não foram registrados eventos adversos importantes durante o estudo.

Possível uso complementar no tratamento

Os pesquisadores ressaltam que os resultados são preliminares, devido ao número reduzido de participantes e ao caráter piloto da investigação. A proposta é avaliar a técnica como recurso complementar no tratamento da obesidade, em conjunto com outras intervenções.

Segundo Vivian Marques Miguel Suen, professora do Departamento de Clínica Médica da FMRP-USP e orientadora do estudo, a estimulação poderá ser investigada como uma ferramenta para auxiliar no controle do desejo por comida e, eventualmente, contribuir para os resultados de outras terapias.

O próximo passo da equipe é estudar a estimulação magnética em pessoas com obesidade e transtorno de compulsão alimentar. A técnica também não é invasiva e utiliza pulsos magnéticos para modular a atividade cerebral.

A investigação contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

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