Esquenta – Rolê – After … Cada vez mais escasso na cena!

O tempo vem passando e devido o seu dinamismo nem percebemos. Aquele momento que eram interessantes para a socialização, flertes, encontros e descontração vem sendo remodelado. No cair da noite de uma sexta, de um sábado ou um sunset de um domingo ainda despertam certas nostalgias em um público mais maduro e que vivenciou essas experiências… O tradicional esquenta que servia como uma “preparação” do rolês (também um drible dos preços altos de alguns estabelecimentos, dependendo de seu status, localização e etc.), o evento principal em si onde chegávamos ao êxtase em curtir como se não houvesse amanhã, e para os inimigos do fim, junto aos primeiros brilhos solares um after hours para estender sentimentos e postergar a deprê pós balada. Para quem ainda tinha fôlego ainda seguia um after do after, fundindo duas noites seguidas e se possível adentrando a madrugada… Hoje restam lembranças, histórias e a descontinuação cada vez mais dessas práticas.

A cada década a sociedade e seus costumes passam por mudanças, muitas vezes influenciadas pela mídia, políticas públicas, mais recentemente mídias sociais e assim seguimos… A cultura noturna não é diferente. Por exemplo algo que veio ganhando forma na segunda metade da década de 1990, se consolidou na década de 2000 e continuou na década seguinte, viu esse comportamento declinar principalmente após a crise sanitária global e a nova reconfiguração social decorrente dos confinamentos impostos pelo poder público e mídia naquele período. Com a gradativa reabertura comercial e econômica houveram novos formatos, como horários controlados e a predominância do diurno. O tal “novo normal” que era muito ecoado naquele período podemos enxergar hoje com festivas, coffee parties, festas undergrounds diurnas (sejam em bares ou locais abertos) com cada vez mais público e o sistema tradicional fechando suas portas ou reinventando-se em meio essa nova realidade.

A figura do esquenta por exemplo tornou-se algo supérfluo para as novas gerações ou as que ainda estão na ativa mas buscou adaptar-se a esse novo formato. Alguns afirmam que a “morte” do esquenta não ocorreu por ter sido substituído mas com a correria do dia a dia e as novas gerações não conseguindo acompanhar a inflação é encarado como uma perda de tempo, em alguns casos ausência de paciência para isso ou energia já que o bem estar e a preocupação com a saúde física e mental vem ganhando espaço com a conscientização ante a “rebeldia” contra cultura de outrora. Essas prévias não seguiam pautas ou protocolos. Surgiam conexões porém devido estarmos ocupados frequentemente “aquecer” como fazemos na academia (principalmente aos praticantes de alguma arte marcial ou esporte específico) deixou de acontecer, afinal nem aquele rolê que esperávamos ansiosamente para acontecer nem queremos mais curtir com a mesma energia. Os tempos são outros. Hoje preocupa-se com postagens nas mídias sociais do que curtir o evento em si! criar uma falsa sensação de pertencimento a certos nichos ou de status no qual boletos nos aguardarão no dia seguinte em decorrência do (a) personagem criado no meio noturno, sejamos realistas… Na noite podemos ser quem quisermos porém há consequências também dessas escolhas e atitudes.

A pressa é apontada como uma das principais causas desse movimento. Antes quando íamos para algum rolê não nos preocupávamos com horários. Para quem tinha disposição um after hours ou after do after que vinham originados de uma sunset party era a sobremesa dessa experiência boêmia… Palavra essa junto a bon vivant, baladeiro (a), clubber, pubber, raver vem caindo em desuso gradual. Felizmente algumas dessas alcunhas posso afirmar que já caiu bem em alguns momentos que vivenciei e curti. Sejamos realistas, a próxima década, a tão aguardada de 2030 de um tal RESET que andam falando por aí entre a elite global, não sei se essa cultura manterá forças e será dada algumas continuidades. Podem até existir mas em formatos minúsculos… Os esquentas, os rolês, afters e afters de afters exigiam pausas e presenças… A ansiedade faz com que estejamos fisicamente ativos mas mentalmente desconectados levando nossas almas a estarem mais austeras e pouco acolhedoras e abertas a conexões.

A gourmetização ajudou em todo esse processo. A essência foi perdida aí. Sem contar os criminosos que aproveitam da situação para subornar fiscais em troca de liberação de alvarás, poder público municipal ao cobrar taxas abusivas para custear os luxos do serviçal do povo que ocupa o cargo eletivo para gerenciar o município e principalmente alguns “fornecedores” que adulteram bebidas visando apenas o lucro e assassinando pessoas, sem contar os serviços de segurança que omissos ou inexistentes hoje em dia fazem vistas grossas para o consumo, comercialização e permissão de substâncias ilícitas nesses locais. É uma observação… Isso acontece porque somos passivos e certamente muitos ganham… Ser espontâneo, íntimo não existe mais nesse contexto. Essa concepção foi assassinada! Quando vira-se produto o objetivo final sempre será o lucro e não e experiência em si. Vide pseudos artistas que estão no mainstream e estilos que tentam empurrar ser sucesso mas que qualitativamente deixam a desejar?!

A geração atual está esgotada! Tanto as novas quanto as mais antigas que sobrevivem nesse cenário. Como diz um refrão da banda Tokio na música Humanos: “Querem me obrigar a ser do jeito que eles são. Cheios de certeza e vivendo de ilusão”. Banda essa que tinha como vocalista o roqueiro Supla no começo dos anos 80. Quem puder pesquisem… Somos cheios de estímulos mas vazios em conexões. Isso é escancarado quando não temos energia para um esquenta, nem forças para encarar festas e com isso nem o destino final somos capazes mais de curtir. Quando o fazemos é mais por algo protocolar… Entre o meio e o final da década passada, entre 2016-2018 houve um comportamento chamado de HP (House Party). Nessa época o Brasil era presenteado por mais uma nova crise e recessão econômica que um bando de incompetentes criaram e criam como sempre. Muitos jovens da época com recursos escassos marcavam eventos mais intimistas com música, bebidas colaborativas entre os participantes e horários alternativos aos habituais para driblarem os desafios impostos da realidade à época.

O vazio fica! a memória de alguns guarda com saudosismos as experiências vividas, outros já não conseguiram ter essa oportunidade. Está todo mundo cansado, está tudo caro e a violência só cresce. O sistema econômico nos transformou na sociedade do cansaço, como bem analisou Byung-Chul Han (filósofo sul coreano e professor da universidade de artes de Berlim). Lembro-me dos meus cronogramas (risos) Meu esquenta geralmente acontecia umas 21:00 até umas 23:00. Em seguida ia para o rolê. Chegava por volta de umas 23:30 ou 00:00. Ficava até umas 06:00. Logo já ia para o After. Esse começava as 05:00 mas como eu sai as 06:00 costumava chegar umas 06:30 ou as 07:00. Ficava no início até umas 10:00 e voltava para casa, porém com o tempo consegui ficar até o final (Entre 12:00 à 13:00). Em duas oportunidades ainda consegui curtir um pós after. A primeira vez consegui esticar até as 16:30 e a segunda e última até então até as 19:00. Alguns percebem uma certa ausência minha dos eventos. Ainda não me aposentei, só estou dando um tempo para poder retornar (Isso fora de Itapetininga porque aqui na cidade a situação não anda muito convidativa no momento, exceto se algo mudar ou surgirem eventos isolados por aqui que me agradem)

Foi essa reflexão que pude propor a todos e todas essa semana. Espero que tenham tido uma excelente leitura…

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