… Era uma vez a Rua Augusta

Uma rua que por décadas foi relacionada à boêmia, cultura, artes, entretenimento e afins vem perdendo sua luz com o assédio e movimentos incisivos da especulação imobiliária. Sim! Atuo na área mas não compactuo com todas as práticas nela existentes. Na realidade nos 10 anos que estou inserido nesse segmento observo mais pontos negativos que positivos, mas enfim… Como não quero ser processado e nem gerar processos ao jornal é melhor estar com as minhas sanidades mentais em paz. Os que praticam comportamentos mesquinhos e antiéticos lembrem-se que jamais escaparão da simultaneidade entre causa e efeito!

Já fui um frequentador da icônica rua que é separada pela Avenida Paulista no qual coexistem o “Alto Augusta” (Entre a Avenida Paulista e o bairro do Jardins) e o “Baixo Augusta” (Entre a Avenida Paulista e a região central). A Avenida Paulista é conhecida na região como “FAIXA DE GAZA” onde ocorre a divisão simbólica entre Palestinos (Baixo Augusta) e Israelenses (Alto Augusta). Um voltado a clientes pertencentes à elite com muitos playboys curtindo cafés, clubs, pubs, bares e restaurantes. No outro as mesmas opções porém com um perfil onde experiências mais undergrounds são mais consumidos.

Na minha época boêmia quando eu curtia a região, gostava de ir em cafés e pubs… Também alguns restaurantes étnicos e cinema de rua. O baixo Augusta também é conhecido por concentrar de cinema de rua à teatros, além de motéis, emissora de rádio (KISS FM – Voltado ao Classic Rock), comércios e galerias em geral. O local também é conhecido por ser ponto de prostituição chegando próximo ao centro. Toda essa diversidade sobreviveu em “harmonia e respeito”.

Na década de 2000 a minha vida noturna foi iniciada no centro antigo (Região do Anhangabaú) passando pelo começo da década de 2010 onde migrei para à Vila Madalena e a Rua Augusta. Na metade da mesma, em 2014 até então frequento a Barra Funda com algumas mesclas em Moema e outras regiões mais descentralizadas como o Guarapiranga onde sempre vivi por 27 anos e adjacências. Esse movimento ocorreu quando transitei entre o Rock e a Música Eletrônica e o Jazz. Ainda tenho “bom relacionamento” com a Vila Madalena porém com a Rua Augusta atualmente encontram-se ressalvas, pois a minha cafeteria predileta ainda encontra-se presente por lá.

Saudades de experiências maravilhosas no Madhu (Restaurante Indiano) que promoviam música instrumental indiana ao estilo Chill Out. Sempre fui bem tratado por seus proprietários Cito Madhusu Danan e sua mãe Janakiai Nayar, nativos da região sul do país asiático. O estabelecimento surgiu em 2010 e infelizmente com a crise financeira da década passada oriundas da volatilidade orçamentária do poder público, o local foi um dos que fecharam as portas. Outro que frequentei e ficou na saudade foi o The Pub SP que surgiu em 2000 e fechou entre 2017-2018. Seu proprietário foi o simpático inglês Philip Yates, mas conhecido por Phil Yates – um fanático torcedor do Liverpool e que proporcionava shows ao vivo com bandas de rock em ascensão e DJ sets nos dias com menos movimento sempre com o Rock e suas vertentes no repertório. Os rótulos de cervejas eram maravilhosas, com destaques para Guinness da Irlanda, Quilmes da Argentina, Heineken e Amstel da Holanda, Erdinger da Alemanha, Stella Artois e Hoegaarden da Bélgica, London Pride e Old Speckled Hen da Inglaterra, Carlsberg da Dinamarca dentre outras. Isso tanto envasadas quanto algumas em pints oriundas de suas respectivas torneiras. Fui muito feliz entre 2013 e 2014 quando fui cliente deste lugar. Assim como ocorreu com o Madhu.

Na Augusta tínhamos o espaço Itaú Cinemas com produções em cartaz que eu amava (majoritariamente filmes europeus, documentários e algumas opções específicas do cinema nacional). Com o renascimento do Cine Belas Artes na Rua da Consolação o público migrou e com o tempo o negócio foi descontinuado. Outros endereços que não pude conhecer mas fazem parte da história da Augusta são: Club Vegas (Do empresário argentino Facundo Guerra) que tinha o Soul, Funk e Disco como sua filosofia e que ditavam o ritmo em sua pista nos anos em que esteve em atividade; Inferno Club com muito Rock ‘N’ Roll através do projeto POP AND WAVE voltado aos anos 80 e 90 com pegada underground com DJs, destaco a Alessandra Garanci que a conheci anos atrás no Anhangabaú no Club Hotel Cambridge. Nesta época o Madame Satã ressurgia na região do Bixiga – Bela Vista (Famosa Casa Gothic Rock de sucesso nos anos 80) e o DJ Club Bar perdia fôlego antes de ressurgir sob nova administração na região central (Região do Campos Elíseos e Praça Princesa Isabel).

Recentemente o teatro Procópio Ferreira (Local que serviu para a produção do humorístico SAI DE BAIXO entre 1996 à 2002) entrou em processo de desapropriação para ceder espaço a mais um empreendimento vertical. A rua Augusta após a crise sanitária global vem se tornando um endereço majoritariamente residencial gourmetizada e aos poucos sua luz vem sendo apagada por terceiros. Luz essa construída em seus tempos áureos, assim como constantemente ocorre com o centro histórico de São Paulo e Santos. Lojas de discos, ateliê de estilistas em início de carreira, restaurantes étnicos como o Tailandês MADE IN THAI da chef paulistana Camila Paludi, que em viagem ao país encontrou-se com a cultura e sabores locais, inspirando-a a empreender nesse segmento ou o PAD THAI GAI do nova iorquino do Brooklyn Khahim Johnson (Esses infelizmente não cheguei a conhecer). Vale destacar a presença dos estúdios da KISS FM, clubs como a Blitz Haus com seus 3 andares, cinemas e teatros que seguiam a contramão do sistema e ditavam tendências… Pubs, o próprio Parque Augusta (Que foi alvo da especulação imobiliária mas os movimentos populares e o ex prefeito Fernando Haddad barraram essa expansão verticalizada) e não deve ser deixado de mencionar o movimento LGBTQIAPN+ que encontrava acolhimento e resistência (Lembrando que a noite sem a pluralidade, harmonia e respeito em geral acaba perdendo o glamour e tornando-se cafona em seu ápice da breguice). Hoje os tempos são outros… As atuais políticas públicas ceifam cultura e entretenimento na região. Muitos são expurgados. Alguns locais ainda resistem como o Bar do Netão com música eletrônica e a própria Praça Roosevelt com seus skatistas e escola de teatro e dramaturgia, mas não é o suficiente.

Estamos ficando caretas. As novas gerações não seguiram o legado… Certamente a partir da próxima década encontraremos um novo mundo, uma nova sociedade e principalmente uma nova Rua Augusta (Caso até lá não exista um projeto de lei para alterar seu nome na Câmara de Vereadores localizado no Palácio Anchieta).

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