Em meio aos desafios enfrentados pelos artistas independentes de Itapetininga, surge “A Plêiade”, um projeto coletivo idealizado por Reginaldo R. Sampaio, mais conhecido como D’Brizze. Com a proposta de unir forças entre MCs e produtores locais, o movimento busca transformar letras e poesias, muitas vezes esquecidas pela correria do dia a dia, em músicas que perpetuam a essência do Rap.
“O objetivo é tirar do papel pensamentos e poesias que não se tornam obras musicais devido à sobrevivência, dívidas e outras prioridades”, explica D’Brizze. “É muito mais fácil conseguir lançar uma obra musical juntando forças, ideias e parcerias.”
A ideia de “A Plêiade” surgiu durante a pandemia, quando as restrições impediram eventos e encontros presenciais. Mesmo assim, artistas ligados ao Rap Itapê começaram a se reunir de forma espontânea, cada um contribuindo com uma parte do processo criativo.
“Um já começava a fazer uma produção instrumental, outro elaborava a letra e, assim, a música nascia”, conta D’Brizze. Dessa dinâmica, surgiram as primeiras faixas e a primeira edição do projeto, com a participação de nomes como Samuke, Vicinais, Fonão, Aleef e Pandagis. O trabalho contou com a mixagem e masterização de Alisson Vines e Dabliueme.
Mais do que apenas um grupo de artistas, “A Plêiade” representa uma conexão entre talentos que compartilham a mesma vivência e dificuldades. “Sempre estivemos reunidos, e isso facilitou a composição das músicas. Depois de alguns anos, a ideia ressurgiu para dar espaço a quem levanta a bandeira do Rap local e também para quem tem talento, mas não consegue investir em um trabalho musical”, explica o idealizador.
O projeto segue fiel às raízes do Rap, valorizando a escrita como ferramenta de denúncia e protesto. “Rap significa ‘Rythm And Poetry’ (Ritmo e Poesia), e nosso objetivo é resgatar essa essência”, afirma D’Brizze. “As músicas do projeto não são apenas entretenimento, mas também reflexão sobre a realidade que vivemos.
Apesar do impacto cultural do movimento, “A Plêiade” não tem fins lucrativos e não promove apresentações ao vivo. “Cada artista tem suas prioridades, muitos trabalham em horários diferentes e não conseguem se reunir para eventos. O disco serve para mostrar o talento individual de cada um, e todos ficam livres para fechar trabalhos através da visibilidade que a obra pode trazer”, explica o idealizador.
No entanto, a possibilidade de encontros presenciais no futuro não está descartada. “Pode ser que um dia aconteça um evento reunindo todos os elementos do Hip Hop: batalhas de rima, graffiti, dança de rua e muito mais. Mas isso vai depender da disponibilidade dos artistas envolvidos”, completa D’Brizze.
A cena cultural de Itapetininga sempre foi rica, mas enfrenta dificuldades por falta de espaços e incentivos. “A cidade tem muitos artistas talentosos, mas não há casas noturnas para todos os estilos musicais, e o setor burocrático da cultura tem tratado a arte local com descaso”, critica D’Brizze.
A ausência de investimento torna ainda mais difícil a trajetória dos artistas locais. “Muitos desistem da arte porque precisam sobreviver. Sem eventos pagos e sem apoio de empresários, fica quase impossível bancar um single, um EP, um álbum ou um clipe”, lamenta D’Brizze.
Diante desse cenário, o projeto aposta na divulgação independente. “O jeito é divulgar na raça, no boca a boca, nas redes sociais. A música chega ao público, mas o trabalho para ganhar visibilidade é enorme”, destaca.
“Salve Quebrada”: a nova edição e as homenagens
A mais recente edição de “A Plêiade” é o disco “Salve Quebrada”, que reúne artistas como D’Brizze, Dabliueme, ZH, OG-CRIA, Fonão, Samuque, Pandagis, o grupo Essência D’Guerrilha e MC Alan, sobrinho de Kranio Mix, um dos precursores do Hip Hop Itapê. O álbum serve como homenagem a Kranio Mix, além de Carlos Goreia e Tião (Domínio da Rima), que faleceram durante a pandemia.
O projeto segue em constante evolução, e D’Brizze espera que futuras edições tragam ainda mais diversidade. “Gostaria muito de ver mais mulheres participando. Itapetininga já teve grandes nomes femininos no Rap, mas sem eventos e incentivos, fica difícil para elas ganharem espaço”, ressalta.
Apesar das dificuldades, “A Plêiade” segue resistindo e mostrando que o Rap local está mais vivo do que nunca. “O mais importante agora é fortalecer todos os artistas, independente de estarem no projeto ou não. Mas como o lançamento mais atual da cena, pedimos que ouçam e compartilhem ‘Salve Quebrada’, que foi feito com muita dedicação e amor à arte, à poesia e ao Hip Hop”, finaliza D’Brizze.







