Alexis: do diagnóstico ao sino do Ironman

Aos 37 anos, Alexis carrega uma história que vai muito além dos números de uma prova de triatlo. Casado com Ana Luiza e pai de Pedro e Joaquim, ele concilia família, trabalho, tratamento e esporte. Em 2022, recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla e precisou lidar com as consequências de um surto que provocou uma lesão na medula.

O diagnóstico trouxe dúvidas e mudanças para a rotina. O esporte, porém, passou a fazer parte do processo de reconstrução. Com o Projeto 021 e acompanhamento nos treinamentos de triatlo, Alexis voltou a estabelecer metas e, entre treinos, adaptações e desafios, chegou ao Ironman 70.3 de São Paulo.

Foram 1,9 km de natação, 90 km de ciclismo e 21 km de corrida até o momento mais simbólico: o toque do sino que marcou a conclusão do primeiro 70.3.

Nesta conversa, Alexis fala sobre família, esporte, diagnóstico, disciplina, preparação e o próximo desafio: a primeira maratona.

Bate-bola com Alexis

Flavio de Abreu: Alexis, antes de falarmos de Ironman, queremos conhecer a sua história. Quem é o Alexis fora do esporte?

Alexis: Eu sou o Alexis, tenho 37 anos, sou casado com a Ana Luiza e pai de dois meninos incríveis, o Pedro e o Joaquim. Antes de qualquer título de atleta, sou marido, pai e alguém que acredita muito no valor da família.

Profissionalmente, atuo na área administrativa e de eficiência operacional no setor de telecomunicações, liderando projetos e equipes com foco em melhoria de processos e resultados. Mas o que realmente me define são as pessoas que caminham comigo. Minha esposa, meus filhos, meus familiares, amigos e treinador formam uma rede de apoio fundamental na minha vida.

Acredito que as maiores conquistas não são individuais. Toda vitória que eu alcanço carrega um pouco da força, do incentivo e da confiança de cada pessoa que esteve ao meu lado nos momentos difíceis.

Flavio de Abreu: Em que momento o esporte entrou na sua vida e quando você percebeu que ele poderia ser muito mais do que uma atividade física?

Alexis: O esporte sempre esteve presente de alguma forma, mas ganhou um significado diferente quando percebi que ele não transformava apenas o meu corpo, mas também a minha mente.

Foi nesse processo que percebi que o esporte era muito mais do que atividade física. Ele me ensinava disciplina, resiliência, paciência e autoconhecimento. Cada treino era uma oportunidade de evoluir não apenas como atleta, mas como ser humano.

Flavio de Abreu: Você convive com a esclerose múltipla. Como foi receber esse diagnóstico e o que mudou na sua vida a partir daquele momento?

Alexis: Receber o diagnóstico de esclerose múltipla em 2022 foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.

Quando você escuta o diagnóstico de uma doença neurológica crônica, inevitavelmente surgem o medo e a insegurança. Minha cabeça foi inundada por perguntas: “Como será o futuro?”, “Vou conseguir trabalhar?”, “Vou continuar sendo o pai que desejo ser para os meus filhos?”, “Vou conseguir praticar esportes novamente?”.

Além do diagnóstico, tive sequelas causadas por um surto que provocou uma lesão na medula. Aquilo mudou a minha realidade e me obrigou a reaprender algumas coisas e entender meus novos limites.

Houve momentos de incerteza e, sim, momentos em que pensei que alguns sonhos talvez não fossem mais possíveis. Mas, com o tempo, aprendi que um diagnóstico não define quem somos. Ele apenas apresenta um novo desafio.

Flavio de Abreu: E como o esporte entrou nessa história?

Alexis: O esporte passou a ser uma das minhas maiores ferramentas de enfrentamento.

No começo, o objetivo era simplesmente continuar me movimentando. Depois, percebi que cada treino representava uma pequena vitória contra os medos que a doença havia trazido.

Treinar era uma forma de provar para mim mesmo que eu ainda era capaz. Cada quilômetro percorrido, cada pedalada e cada braçada tinham um significado muito maior do que o aspecto esportivo.

O esporte me devolveu confiança, propósito e a certeza de que eu poderia continuar construindo sonhos, mesmo convivendo com limitações.

Flavio de Abreu: Você chegou ao Projeto 021 e, paralelamente, começou um trabalho voltado para o triatlo comigo. Como foi esse processo de preparação até chegar ao Ironman 70.3 de São Paulo?

Alexis: Foi um processo de construção diária.

Quando iniciei essa jornada com o Projeto 021 e com o Flavio Abreu, eu não estava apenas treinando para uma prova. Eu estava reconstruindo minha confiança e minha capacidade de acreditar novamente em metas grandes.

Os treinos exigiram muito comprometimento. Houve dias de cansaço, dores, dúvidas e adaptação. Mas existia um plano, um acompanhamento profissional excelente e um propósito por trás de cada sessão.

Sem esse acompanhamento do Flavio Abreu, nada disso seria possível e eu não estaria contando essa história aqui.

Se eu tivesse que apontar o maior desafio, talvez não fosse uma modalidade específica. O mais difícil foi manter a consistência. Acordar cedo, conciliar trabalho, família, tratamento, recuperação física e treinos exige disciplina.

Existem dias em que a motivação não aparece. Nesses momentos, é a disciplina que mantém você em movimento.

Flavio de Abreu: Quando você chegou ao dia da prova, o que passou pela sua cabeça?

Alexis: Na largada, eu sabia que aquela prova representava muito mais do que um evento esportivo.

Eu não estava ali apenas para completar 1,9 km de natação, 90 km de ciclismo e 21 km de corrida. Eu estava carregando toda uma história de desafios, superação e recomeços.

Lembrei do dia do diagnóstico, da lesão na medula, dos momentos difíceis, do acidente de bicicleta, da cirurgia, da incerteza sobre as condições em que chegaria para realizar a prova, dos treinos realizados mesmo quando ninguém estava vendo, da minha família e das pessoas que acreditaram em mim.

Ali eu representava a prova concreta de que a vida continua depois das adversidades.

Flavio de Abreu: E então veio aquele momento tão simbólico: o sino do Ironman. O que você sentiu quando tocou o sino e percebeu que tinha realizado o seu primeiro 70.3?

Alexis: Foi impossível não me emocionar.

Naquele instante, passaram pela minha cabeça anos de luta, medo, recuperação e perseverança. O toque do sino representou uma vitória sobre tudo aquilo que um dia tentou me convencer de que eu deveria desistir.

Foi como fechar um ciclo e abrir outro ainda maior.

Se eu pudesse voltar no tempo e conversar com o Alexis de 2022, que acabava de receber o diagnóstico de esclerose múltipla, eu diria:

“Calma. Vai doer, você vai sentir medo, vai chorar em alguns momentos e questionar muitas coisas. Mas não desista. Você é mais forte do que imagina. A doença vai mudar alguns planos, mas não vai tirar sua capacidade de sonhar. Continue avançando. Um dia você estará tocando o sino de um Ironman e terá orgulho de não ter desistido.”

Flavio de Abreu: Durante essa caminhada, qual foi a importância da sua esposa, dos seus filhos, da família e dos amigos?

Alexis: Fundamental.

Nenhuma conquista desse tamanho acontece sozinho. Minha esposa esteve ao meu lado em todos os momentos, principalmente nos dias mais difíceis, quando nem eu mesmo acreditava.

Meus filhos são uma das minhas maiores fontes de motivação. Quero que eles cresçam entendendo que coragem não é ausência de medo, mas a decisão de seguir em frente apesar dele.

Minha família, meus amigos, meu treinador e todas as pessoas que acompanharam essa jornada contribuíram de alguma forma. Em cada mensagem de incentivo, em cada pergunta sobre os treinos e em cada torcida, eu sentia que não estava lutando sozinho.

Flavio de Abreu: Agora que o 70.3 virou realidade, você já tem outro desafio pela frente: em novembro, sua primeira maratona. O que significa sair de um Ironman 70.3 e, poucos meses depois, encarar 42,195 km?

Alexis: A maratona representa mais um capítulo dessa jornada.

Claro que existe aquele frio na barriga. Afinal, são 42,195 km e uma distância que exige respeito. Mas também existe entusiasmo.

Depois de tudo o que vivi, aprendi a enxergar os desafios como oportunidades de crescimento.

Não encaro a maratona apenas como uma prova. Vejo como mais uma oportunidade de descobrir até onde posso chegar quando mantenho a constância, a disciplina e a fé no processo.

Sei que será difícil, mas também sei que as maiores conquistas da minha vida aconteceram justamente quando decidi enfrentar o que parecia impossível.

Flavio de Abreu: Para terminar: o que você gostaria que uma pessoa que acabou de receber um diagnóstico de esclerose múltipla, ou que acredita que suas limitações impedem seus sonhos, aprendesse com a sua história?

Alexis: Eu gostaria que essa pessoa entendesse uma coisa: receber um diagnóstico não significa receber uma sentença.

É normal sentir medo. É normal ter dúvidas sobre o futuro. Eu também senti tudo isso.

Mas aprendi que não precisamos esperar que as condições sejam perfeitas para continuar vivendo. Podemos continuar sonhando, evoluindo e conquistando objetivos mesmo diante das dificuldades.

Minha história não é sobre vencer uma doença. É sobre não permitir que ela defina quem eu sou.

Se existe uma mensagem que eu gostaria de deixar, é esta: desistir não é uma opção. Você só precisa não desistir e nem ter isso como uma opção na sua vida. Continuar avançando, um passo de cada vez.

Porque, muitas vezes, aquilo que hoje parece impossível será exatamente a história que você contará com orgulho no futuro.

E eu sou a prova viva disso.

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