A nova NR-1 traz mudanças estruturais na Segurança e Saúde no Trabalho (SST). Em paralelo, práticas ligadas à literatura e à escuta começam a ocupar espaço no ambiente corporativo
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) entrou em vigor oficialmente para fins de fiscalização em maio de 2026. Desse modo, empresas brasileiras passam a ter uma nova obrigação formal: incluir a saúde mental entre as prioridades da gestão laboral.
Com a nova regulamentação, fatores psicossociais passam a integrar oficialmente a avaliação de riscos ocupacionais, obrigando organizações a identificar, prevenir e monitorar situações como burnout, assédio moral, sobrecarga, pressão excessiva e ambientes psicologicamente inseguros.
A mudança surge num contexto de agravamento do sofrimento psíquico associado ao trabalho. Nos últimos anos, cresceram os afastamentos por ansiedade, depressão e esgotamento profissional, num cenário marcado pela hiperconectividade, pela aceleração constante e pela cultura da produtividade contínua.
Mais do que uma adequação burocrática, especialistas apontam que a nova regulamentação exige uma mudança cultural. O debate sobre desempenho e resultados começa agora a dividir espaço com temas como escuta, qualidade das relações humanas, pertencimento e bem-estar emocional.
É precisamente nesse contexto que práticas ligadas à literatura, à oralidade e à experiência simbólica começam a ganhar espaço nas organizações.
Entre os nomes que atuam nessa intersecção está a escritora, narradora oral e biblioterapeuta luso-brasileira Clara Haddad, que há mais de três décadas desenvolve projetos voltados à literatura, à mediação de leitura e à literacia emocional.
Membro da Associação Brasileira de Biblioterapia, Clara realiza encontros e vivências em empresas, bibliotecas, escolas e instituições culturais no Brasil e em Portugal. Nos trabalhos que conduz, livros, contos tradicionais, a poesia e narrativas orais tornam-se instrumentos de escuta, reflexão e elaboração emocional.
A proposta distancia-se da ideia de leitura como simples entretenimento. Em rodas de leitura e experiências coletivas, as histórias funcionam como ponto de partida para abordar temas como ansiedade, pertencimento, empatia, luto, memória e autocuidado.
“Conhecer as próprias emoções e aprender a nomeá-las é um passo fundamental para a saúde mental, porque só conseguimos cuidar com clareza daquilo que conseguimos reconhecer”, afirma Clara Haddad.
Autora de livros voltados à infância e à experiência humana, Clara construiu uma trajetória internacional ligada à narração de histórias e à formação de leitores, participando de festivais literários, bibliotecas e projetos culturais em diferentes países.
Nos últimos anos, o seu trabalho passou também a dialogar com organizações interessadas em formas mais humanizadas de cuidado emocional no ambiente corporativo.
A chamada biblioterapia — prática que utiliza a literatura como ferramenta complementar de cuidado e desenvolvimento humano — vem conquistando espaço em hospitais, escolas, bibliotecas e empresas. Mais do que incentivar a leitura, propõe a criação de espaços de pausa, identificação e reflexão por meio das narrativas.
Em ambientes profissionais marcados pela pressão e pela fragmentação das relações humanas, experiências mediadas por livros e histórias começam a ser vistas como estratégias capazes de fortalecer vínculos, estimular a escuta coletiva e ampliar repertórios emocionais.
A nova regulamentação brasileira parece sinalizar justamente essa mudança de paradigma: o sofrimento emocional deixa de ser entendido apenas como fragilidade individual e passa a ser reconhecido como questão estrutural e institucional.
Em uma época marcada pela exaustão emocional, pela velocidade e pela dificuldade de escuta, os livros parecem recuperar uma de suas funções mais humanas e essenciais: oferecer sentido, acolhimento e caminhos de reconexão consigo mesmo e com o outro.
