O cinema europeu nos faz refletir, independente da nacionalidade deste. Em 10/06/2026 em uma quarta-feira chuvosa fui acompanhar gratuitamente através do CINE SESI aqui em Itapetininga o filme italiano NOSTALGIA. Diferente do cinema americano que a cada 03 segundos há mudança brusca takes em suas montagens, os europeus (cinema latino e brasileiro o tem como referência em suas produções, com exceções de alguns) já são mais fluídos e utilizam um perfil performático, enigmático e reflexivo (características também muito presentes no teatro sejam eles o italiano, elisabetano ou de arena). A direção, atuações, roteiro e fotografia foram excelentes…
O filme que contou com produção Franco-Italiana / Italo-Francesa se passa no sul da Itália, na parte pobre da “problemática” cidade de Napoles. O personagem principal Felice Lasco, interpretado pelo ator, cineasta e diretor teatral Pierfrancesco Favino após uma juventude cheias de aventuras e conflitos foi forçado a deixar o país, seguindo seu caminho em direção ao Líbano, África do Sul e em seguida ao Egito, onde montou um império e casou-se com Madame Lasco, interpretado pela atriz franco-marroquina Sofia Essaidi. Felice Lasco retorna ao seu local de nascimento, o bairro de Sanità para reencontrar sua mãe idosa e com deficiência visual, a quem cuidou durante os últimos anos de sua vida. Após a morte dela, Felice decide não partir, mas permanecer em Nápoles para se reconectar com seu passado de adolescência. Entre suas memórias, destaca-se a de seu amigo de infância, Oreste Spasiano, (vivido pelo ator Tommaso Ragno) a quem Felice anseia rever, mesmo ao descobrir que ele se tornou o chefe da máfia Camorra, a mais perigosa do bairro de Sanità. Raffaele (interpretado por Nello Mascia), antigo admirador de sua mãe, revela isso a ele, aconselhando-o paternalmente a retornar ao Egito, onde sua esposa o aguarda.
Felice também desenvolve um laço de respeito com Dom Luigi (Interpretado pelo ator Francesco Di Leva), o pároco que oficiou o funeral de sua mãe. Durante uma espécie de confissão (não sacramental, pois ele não é cristão), revela ao padre um segredo que havia guardado: um roubo que cometeu com Oreste quarenta anos atrás e que resultou em um assassinato cometido por seu amigo, que, flagrado em delito, matou o dono de uma carpintaria. Dom Luigi, um fervoroso ativista anti-Camorra, reage com desdém quando Felice confidencia que não teria medo de reencontrar seu amigo, agora chefe, com quem ainda sente proximidade. O padre o expulsa da igreja, mas no dia seguinte liga para ele, insistindo para que denuncie Oreste e que deixe a cidade, acreditando que ele esteja em perigo. Felice, no entanto, está determinado a ficar e quer encontrar seu amigo, agora chefe, que já soube de seu retorno a Nápoles.
Entretanto, Dom Luigi o conduz pelas vielas de Sanità, e memórias da infância ressurgem, juntamente com um sotaque napolitano que Felice inicialmente parecia ter esquecido. Durante um jantar na casa de uma família com ligações à Camorra, diante de Dom Luigi, Felice relembra abertamente sua antiga amizade com Oreste Spasiano , deixando todos os presentes sem palavras. Ele finalmente consegue contatar um dos seguidores mais leais do chefe, marcando um encontro. Em seguida, é levado a um esconderijo ultrassecreto em Sanità, onde seu amigo, mais velho que ele, vive em reclusão.
Em um confronto dramático, Felice jura a Oreste que nunca revelou o segredo que compartilhavam sobre o assassinato do carpinteiro. Oreste, no entanto, o repreende por ter fugido e o abandonado sem nunca mais entrar em contato, optando por uma vida mais confortável do que a oferecida nas favelas de Sanità. O líder da Camorra então ordena que ele deixe Nápoles o mais rápido possível, mas Felice reitera que não tem intenção de fazê-lo, após ter se reconciliado com o passado, e propõe uma reconciliação definitiva. Dom Luigi, furioso com a imprudência de Felice ao ir ao esconderijo do líder da máfia napolitana, decide mantê-lo sob vigilância e proteção. Enquanto isso, convence sua esposa a se mudar para Nápoles com ele. Na véspera de sua chegada, Felice retorna para casa, finalmente sorrindo, quando é abordado por Oreste, que o esfaqueia duas vezes.
O filme foi dirigido brilhantemente pelo cineasta italiano Mario Martone e foi adaptado da obra literário do escritor de mesma nacionalidade Ermanno Rea, romance lançado em 2016. O roteiro coube a Martone e sua esposa, também roteirista Ippolita di Majo e direção de fotografia desenvolvida pelo veneziano Paolo Carnera que soube trabalhar bem a iluminação, enquadramentos e trouxe um aspecto já clássico do cinema europeu, excelentes e magníficas fotografias…
… Em resumo na maioria das vezes o cinema europeu busca trazer reflexão ao espectador. Ele utiliza a ficção mas consegue a transformar hábilmente em algo mais realista. Nem todos estão preparados (as) para lidar com sua singularidade e profundidade provocativa. Os cinemas árabe, israelese e iraniano por exemplo seguem essas métricas também. Esse filme que foi lançado em 2023 chegou a ser indicado ao Palma de Ouro no festival de Cannes mas acabou não sendo laureado, embora tenha conseguido alguns prêmios locais na Itália, como o David di Donatello, equivalente ao Oscar local, mais prestigiado que o próprio festival de Veneza… Como aqui no Brasil por exemplo temos o Festival de Gramado, um dos mais importantes do cinema latino americano.
Vale a pena assistir quem ainda não assistiu esse filme. Documentários, cinema europeu e filmes mais alternativos infelizmente não possui um público maior... Acaba sendo algo nichado e as vezes difícil de encontrar. Em Itapetininga e Sorocaba acompanhem a programação do SESI pois além de ser gratuito a proposta é maravilhosa. Um bom filme é aquele te que provoca reflexão profunda, assim como peças de teatro pois as artes cênicas é a imitação da vida! Cinemas comerciais e de shopping não costumam passar esse tipo de programação. Em São Paulo os cinemas CINE BELAS ARTES situado na Rua da Consolação e o CINE SALA localizado em Pinheiros, Próximo da estação Fradique Coutinho da linha 4 Amarela exibem regularmente produções fora do eixo estadunidense e também contam com variedades interessantes do cinema nacional, ressaltando que algumas produções brasileiras são maravilhosas, pena que não são valorizadas. E claro o Próprio SESI em todo o estado, SESC e demais espaços que promovem a cultura em um país que com o passar dos anos está mais carente da mesma...




